Tendo nascido em Cordisburgo
E muito amante do lugar
Adorei a brincadeira
Peço licença para entrar


Me refiro às “exigências”
Para ser considerado
Filho legítimo da cidade
E tudo aquilo vivenciado


Agradeço aos conterrâneos
E reitero uma vez mais
Pelos lembretes divulgados
Pelas redes sociais


Participo com os versos
A seguir consignados
Em forma de poesia
Exaltando nosso passado



Diz que é de Cordisburgo
Mas te faço um desafio
Se lembrar do curral de ferro
Já merece um elogio


Perto do Bar do Efigênio
E do Clube Social
Famoso pelos bailes de gala
E do seleto carnaval


Se você não é da época
Da loja do Xavier
E da padaria do Zé Padeiro
De Cordisburgo você não é


Alega ter nascido em Cordis
E não se lembra do Bar Brasília
Também do Bar do Cecílio
E muito menos da Coletoria


Diz ser filho da terrinha
Mas duvido se na época viu
O Bradesco em atividade
Minascaixa e o Mercantil


Tem gente que canta de galo
Mas não estaria se lembrando
Da siderúrgica produzindo
E da cerâmica funcionando


A Banda do Raimundo Totó
E todo o povo aglomerado
RC-5 e D’ens Boys
Mugstones ovacionado


Zezé Leone e sua farmácia
Então médico de família
Aniceto e Doutor Tápia
Da saúde a vigília


Diz que é de Cordisburgo
Mas pode ter se esquecido
Da antiga fábrica de doce
E da fábrica de tecido


Saudáveis prosas noturnas
Na marquise da Estação
Dos funcionários da Rede
Mas fofoca tinha não


O cenário me remete
Ao hotel da Inhatina
À Dona Cirila das empadas
E à saudosa Patrocínea


Devolva o seu passaporte
Se você nunca escorregou
Na escadinha da Estação
E o trem nunca pulou


E o “foot” depois da missa
Uma paquera, boa prosa
Roberto Carlos na Gruta
E “O Diamante Cor de Rosa”


São dois grandes requisitos
E não são exigências minhas
Ter frequentado o Carrossel
E a Boite da Zizinha


Ricardo e a “Farmácia do Povo”
Que na verdade era frutaria
Vaquinha do leite buzinando
“Eu era feliz e não sabia”


Descarrilamentos na Quininha
Quero testar a memória sua
Caminhões de leite chegando
E o Raminho varrendo a rua


Luzia Patroa, Antônia Gomes
João Pequi e Mané da Conferência
Geraldo Calango, ainda Alvino
A eles, nossas reverências


A pipoca do Afonsino
Lá na porta do cinema
Muitos adultos e meninos
Assistindo ao Giuliano Gemma


Era Cine Santo Antônio
Cinemascope colorido
Palco de outros eventos
Além de mocinho e bandido


Bem detrás do Santuário
Quadros vivos admirados
E a subida no pau de sebo
Quando Judas era queimado


Me lembro do Frei Gabriel
Por longo tempo o vigário
Freis Agnelo D’Angelo e Paciano
E da Igrejinha do Rosário


Diz ter nascido em Cordis
Mas é pura mentirinha
Se não aprendeu datilografia
Com a professora Verinha


Por eu ter vivenciado
Memória ainda me sobra
Dos bailes de debutantes
E das festas da abóbora


Cenas comuns todos os sábados
O Mugstones ensaiando
E o som da radiola
Do Pepeu se propagando


Diz que é cria da cidade
Mas esta fala te compromete
Se não usou boca de sino
E não dançou bilisquete


Os bailes no São Vicente
E as famosas barraquinhas
Com bingos e correio amoroso
Sem faltar o arroz com galinha


Serenatas e horas dançantes
Também bailes nos colégios
Com cuba libre e porradinha
Para nós era um privilégio


Solenidades de sete de setembro
Com orgulho e honraria
Desfiles com traje de gala
Disciplina e harmonia


Outra posse do Ladu
Pra novo período de gestão
Só através da prefeitura
Se completava uma ligação


O churrasco “fogo de chão”
Que o Marinho fazia
Bem em frente à prefeitura
E à antiga delegacia


Excesso de turistas na Gruta
O estacionamento não comportava
Concorrência entre os restaurantes
E lá embaixo o “Baú do Barba”


Jamais é de Cordisburgo
Se você nunca entrou
Em circo por baixo da lona
E o palhaço não acompanhou


Boi Pontal, Palhaço Cheiroso
Grandes espetáculos circenses
Quero realmente saber
Se, de fato, é cordisburguense


Se você nunca se escondeu
De vaca brava na rua
Não é cria da terrinha
Outra naturalidade é a sua


E também sem se esquecer
Da antiga venda da Delminda
E dos presépios do Inácio
Obras raras, mais que lindas


Perto lá da cooperativa
Me esforçando um pouquinho
O futebol na pracinha
E a serraria do Tuzinho


A máquina de tirar retrato
Do excêntrico Zé Lobinho
E sua banca de revista
Onde hoje é o Paulinho


Revoada de pombos-correio
Após a soltura das gaiolas
Formando imagens no céu
Naqueles tempos de outrora


E as brigas no futebol
Cidade vizinha disputar
Poço Barranco e Poço Chapéu
Banhos no córrego pra relaxar


Antigas casas populares
Onde era futebol de salão
Ponto Final Dois Mil e Um
Desse eu não me lembro não


Pescando no Onça Velha
A gente ainda menino
Mas sendo repreendido
Pelo pessoal do Saturnino


Quem nunca roubou uma pera
Na fazenda da Nadir do Nego
De dia buscando leite
Mas, à noite era segredo


O Poçômetro da Central
Na boca da Ponteleão
Enchentes no Córrego do Onça
Eram sempre grande atração


A antiga vaporosa
Com seu canudo de fumaça
Trens de bois e passageiros
Saudade que nunca passa


Os apitos daqueles trens
Ainda ecoam no tempo
No trole o pessoal da soca
Ia remando contra o vento


O temor dos baianos da linha
E no trajeto a Cruzelina
Eram reais os relatos
Sobre a luz da Fulorzina


Hoje eu choro com saudades
Infância que ficou marcada
Turma da Central em ruínas
E não mais a Charqueada


Cowboy, finca, malha e pião
Bodoque e outras brincadeiras
No rádio “Jerônimo, o Herói do Sertão”
E na rua o “Dia dos Pereira”


Tantos outros personagens
Que ficaram na memória
E também outros eventos
Construíram a nossa história


Me limito em aplaudi-los
Para mais não me alongar
Registrados estão no tempo
Quero a todos homenagear


Essas passagens nos orgulham
Com uma pitada de vaidade
Um singular privilégio
Antigos filhos da cidade


Tais condições, entre outras
Fazemos questão de ostentar
Que conferem autenticidade
Filhos natos do lugar


Jura ser de Cordisburgo
Mas vou te dar uma sugestão
Se não viveu tudo isso
Rasgue a sua certidão


Enfim, pra todos é uma honra
E contamos cheios de prosa
Temos a Gruta do Maquiné
Conterrâneos de Guimarães Rosa


Agora, brincadeiras à parte
Razão para bater no peito
Cordisburguense de ontem ou hoje
O orgulho é do mesmo jeito


Hoje Cordis, outras histórias
Novos valores, grandes eventos
Sempre altaneira e acolhedora
Com sua magia e encantamento.


Brasília-DF,
Antônio Pereira de Souza



Antônio Pereira de Souza nasceu em Cordisburgo-MG e reside em Brasília-DF. É casado com sua conterrânea Magna Cristina, com quem tem três filhos. É graduado em Ciências Econômicas, bem como em Ciências Contábeis pelo UniCEUB, com especialização em Direito Público e Controle Externo pela Universidade de Brasília-UnB. É servidor aposentado do Tribunal de Contas da União-TCU e membro da Academia Cordisburguense de Letras Guimarães Rosa.

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