A escritora, editora, professora e gestora cultural Solange Moraes Barreto Borges, conhecida como Sol Barreto, morreu na segunda-feira, 27 de julho, aos 62 anos. Ela sofreu um mal súbito quando estava no interior de São Paulo, chegou a ser hospitalizada, mas não resistiu.
Nascida em 16 de janeiro de 1964, Sol deixa uma trajetória marcada pela defesa da leitura, da educação patrimonial, da memória social e da cultura popular. Em Cordisburgo, cidade com a qual estabeleceu uma profunda relação de afeto e trabalho, sua atuação se estendeu por cerca de 15 anos e resultou em livros, documentários, exposições, oficinas, pesquisas, inventários culturais e na formação de jovens agentes da cultura.
Mais do que realizar projetos na cidade, Sol Barreto ajudou moradores de diferentes gerações a reconhecerem o valor de suas próprias histórias. Por meio da escuta atenta, da pesquisa comunitária e da produção coletiva, transformou lembranças, saberes, modos de vida e narrativas orais em registros capazes de atravessar o tempo.
Uma vida dedicada à educação e à cultura
Graduada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Sol possuía formação em áreas como Literatura Brasileira, Linguística, Análise do Discurso, Literaturas Brasileira e Portuguesa, Gestão Cultural e Educação Patrimonial. Também cursou mestrado em Teoria Literária na Universidade Estadual de Campinas.
Antes de se consolidar como gestora cultural, trabalhou durante anos como professora e coordenadora pedagógica em instituições públicas e particulares de Belo Horizonte. Na educação formal, desenvolveu projetos de leitura e escrita com estudantes dos ensinos Fundamental e Médio. Essa experiência seria posteriormente levada para bibliotecas comunitárias, comunidades tradicionais, grupos juvenis e projetos de memória.
A partir de 1999, passou a atuar na gestão cultural da ONG Trilhas da Serra. A instituição desenvolveu projetos relacionados à democratização do acesso à leitura, bibliotecas comunitárias e itinerantes, cultura popular, educação ambiental, comunidades tradicionais e educação patrimonial.
Sol também esteve à frente da Catapoesia Editora Cartonera, iniciativa surgida no fim dos anos 2000 que produzia livros artesanais com capas de papelão reaproveitado. O projeto reunia escrita, leitura, memória, preservação cultural, sustentabilidade e protagonismo comunitário.
A proposta era “catar a poesia do cotidiano”: ouvir histórias, entrevistar moradores, recolher lembranças e transformar a palavra oral em textos, fotografias, vídeos, áudios e livros confeccionados coletivamente.
O encontro com Cordisburgo
A atuação da Catapoesia em Cordisburgo começou em 2011, quando foi formado o coletivo juvenil "Loucos por Memória". O grupo reuniu jovens da cidade dispostos a pesquisar o patrimônio cultural local, conversar com mestres da tradição oral e aprender todas as etapas necessárias para a produção de um livro.
Os participantes não eram apenas convidados para acompanhar as atividades. Eles assumiam o protagonismo do processo: escolhiam os personagens e os temas, realizavam entrevistas, transformavam os depoimentos em textos, participavam da revisão, da diagramação, da impressão, da confecção artesanal das capas, da divulgação e dos lançamentos.
A metodologia adotada por Sol Barreto partia do entendimento de que os próprios moradores deveriam ser autores e guardiões de suas histórias. Assim, o conhecimento não era levado pronto para a comunidade. Ele era construído a partir daquilo que as pessoas já sabiam, viviam e desejavam preservar.
A criação do coletivo abriu uma nova frente de atuação cultural em Cordisburgo, articulando juventude, patrimônio, literatura, memória popular e a obra de João Guimarães Rosa.
Incentivo aos cordisburguenses
Entre os nomes incentivados por Sol está o da jovem poeta cordisburguense Thalita de Oliveira Freire. Integrante do coletivo Loucos por Memória, Thalita teve seus poemas publicados no livro artesanal “In-Verso”, uma das primeiras obras da Catapoesia produzidas em Cordisburgo.
O livro reuniu poemas intimistas sobre o cotidiano de uma jovem da cidade, o sertão, o meio ambiente e os reflexos da obra de Guimarães Rosa em seu imaginário. A publicação representou a abertura de um espaço editorial para uma nova autora local e materializou um dos principais objetivos do projeto: mostrar aos jovens que suas experiências, palavras e formas de olhar para o lugar onde vivem também possuem valor literário e cultural.
Ao apoiar jovens como Thalita e formar o Loucos por Memória, ela ajudou a criar uma geração mais consciente da importância do patrimônio de Cordisburgo. Muitos desses participantes passaram a atuar na produção de eventos, pesquisas, exposições e outras iniciativas culturais da cidade.
Outro ponto central do trabalho de Sol foi a valorização das pessoas que guardavam conhecimentos transmitidos de geração em geração. Em vez de restringir a ideia de patrimônio a prédios e objetos antigos, seus projetos reconheceram como patrimônio os modos de falar, cultivar, bordar, rezar, cantar, contar histórias e compreender o sertão.
Esse trabalho resultou em livros e registros audiovisuais dedicados a grandes personagens da cultura cordisburguense, como Senhor Toco Pequi e Dona Lica, ambos já falecidos, além do poeta Manoel do Norte.
O livro “Tocos do Cerrado” registrou poemas, narrativas, conhecimentos sobre medicina tradicional e aspectos da Folia de Reis relacionados à trajetória do mestre raizeiro Toco Pequi. Ao registrar seus saberes, o projeto contribuiu para preservar conhecimentos que, durante muito tempo, foram transmitidos principalmente pela oralidade.
A história de Dona Lica, antiga bordadeira de Cordisburgo que tinha 101 anos durante o desenvolvimento do projeto, foi registrada em “Bordando Letras”. A obra reuniu poemas e memórias de sua vida, valorizando não apenas sua trajetória individual, mas também o bordado, o trabalho feminino e as lembranças compartilhadas por diferentes gerações.
Já o poeta Manoel do Norte foi autor de “De-Repentes”, publicação que apresentou um poema sobre a Serra dos Coités e um conto relacionado à Chapada e ao Cerrado. A obra ajudou a levar para o papel a linguagem, o imaginário e o olhar de um poeta profundamente ligado ao território cordisburguense.
Além dos livros, as entrevistas e encontros produziram fotografias, vídeos, documentários e outros registros audiovisuais. Dessa forma, as vozes, os gestos e as maneiras de contar de cada personagem também puderam ser preservados.
O conjunto de publicações produzidas em Cordisburgo incluiu ainda títulos como “Viver é Etcétera”, um álbum sobre os patrimônios culturais da cidade; “Veredinhas do Sertão”, com trava-línguas construídos a partir de palavras de “Grande Sertão: Veredas”; “Olhares”, com poemas sobre o universo sertanejo; “Colecionando Saberes”, dedicado à educação patrimonial; e as obras “Folia”, “Mangabeira” e “Aboio”.
Cada publicação funcionava simultaneamente como obra literária, documento de memória e instrumento de educação cultural.
Recordança e o fortalecimento do Museu do Brasinha
Uma das contribuições mais importantes de Sol Barreto para Cordisburgo foi a criação do Ponto de Memória Recordança, desenvolvido em parceria com o mestre José Osvaldo dos Santos, o Brasinha, o coletivo Loucos por Memória e outras pessoas e instituições locais.
O nome “Recordança” nasceu da fala de um morador que, ao tentar se lembrar de um acontecimento durante uma roda de conversa, disse que havia buscado aquilo em sua “recordança”, unindo as ideias de recordação e lembrança.
A iniciativa buscava conhecer, valorizar e proteger o patrimônio material e imaterial de Cordisburgo por meio do diálogo entre gerações. As histórias de vida, os casos e as memórias dos mestres da tradição oral eram transformados em livros artesanais e registros audiovisuais.
O projeto trabalhou especialmente com quatro objetos ligados ao Ateliê Ave Palavra, espaço mantido por Brasinha: uma cadeira de cinema, uma câmera fotográfica, um baleiro e um aparelho de rádio. Cada objeto era tratado como portador de narrativas, capaz de despertar lembranças sobre a cidade, seus moradores e diferentes períodos da história local.
Realizado em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus, o Ibram, o Ponto de Memória Recordança gerou livros, vídeos, inventários de objetos e atividades de educação patrimonial. O trabalho também foi fundamental para dar maior organização, identidade e base institucional ao espaço de Brasinha.
A partir do projeto, foram iniciados o registro e a criação da marca do Museu do Brasinha, fortalecendo institucionalmente uma iniciativa que já preservava objetos, histórias, fotografias e lembranças de Cordisburgo. Sol ajudou, assim, a transformar um acervo construído pela dedicação pessoal de Brasinha em uma referência mais estruturada de memória comunitária.
Presença constante
A trajetória de Sol Barreto em Cordisburgo também se confundiu com a história recente das Semanas Rosianas. Durante vários anos, a Catapoesia participou da programação do evento com lançamentos de livros, exposições, instalações, rodas de conversa, oficinas e atividades interativas.
Destaca-se a participação de 2016, quando foi realizada a exposição “No sirgo fio dessas recordações”. A exposição utilizava passagens de “Grande Sertão: Veredas” para despertar no público lembranças relacionadas a pessoas, lugares e objetos.
Desde então, Sol e sua editora estiveram presentes em toda as Semanas Rosianas presenciais, em mais de uma década de participação contínua.
Em 2021, mesmo diante das limitações impostas pela pandemia, Sol coordenou o projeto “Bordando e Abordando”, desenvolvido com o Grupo da Melhor Idade Estrelas do Sertão, da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa.
Cada exemplar do livro recebeu uma capa única, bordada pelas próprias integrantes do grupo. As páginas reuniram vivências e recordações das participantes, enquanto os bordados também deram origem a uma exposição.
O trabalho demonstrou novamente uma característica presente em toda a trajetória de Sol: aproximar pessoas, técnicas artesanais, literatura e memória, fazendo com que os participantes fossem reconhecidos não apenas como fontes de pesquisa, mas como autores e criadores.
Última participação em Cordisburgo
Poucas semanas antes de morrer, Sol Barreto esteve novamente em Cordisburgo durante a 38ª Semana Rosiana. Na programação, lançou o livro artesanal “Canimbó”, organizado a partir dos relatos dos mestres Antônio e Arlindo.
A obra abordou o objeto tradicional conhecido como canimbó e propôs reflexões sobre memória, tradição, saberes populares e os desafios colocados pelo avanço da inteligência artificial. O livro foi apresentado no Museu Casa Guimarães Rosa.
Sol também participou da instalação “Coisas, e a morte que existe nelas”, que apresentava a trajetória do domínio do fogo pelo ser humano, reunindo pedras, lamparinas, objetos antigos, livros artesanais e o próprio canimbó. O público pôde interagir com os objetos durante uma vivência cultural e educativa.
Na mesma, Sol articulou a presença da editora mexicana Momito Cartonera, representada por Rafael Arellano. A participação ampliou o intercâmbio entre Cordisburgo e o movimento cartonero latino-americano, aproximando experiências de produção artesanal de livros, memória comunitária e valorização das culturas populares.
A pequena tenda montada em frente ao Museu Casa Guimarães Rosa tornou-se um espaço de encontro entre editores, estudantes, moradores e visitantes. Ali, o público pôde conhecer livros confeccionados com papelão reaproveitado e compreender como a produção manual e coletiva também pode funcionar como instrumento de inclusão cultural.
A última passagem de Sol por Cordisburgo, portanto, manteve os elementos que definiram toda a sua trajetória: a escuta dos mestres, a valorização dos objetos cotidianos, o compartilhamento de conhecimentos, a presença da literatura e a construção de pontes entre pessoas e territórios.
Um legado que permanece
Ao longo de aproximadamente 15 anos, Sol Barreto não apenas desenvolveu projetos em Cordisburgo. Ela ajudou a cidade a olhar para si mesma, reconhecer seus personagens e perceber que a memória de uma comunidade também está presente nas pessoas comuns, nos objetos antigos, nas festas, nos bordados, nos poemas, nos quintais, nas plantas medicinais e nas histórias contadas em uma roda de conversa.
Seu trabalho deu visibilidade a mestres que dificilmente encontrariam espaço no mercado editorial convencional. Também incentivou jovens a assumirem o papel de autores, pesquisadores, fotógrafos, entrevistadores, produtores e agentes culturais.
Os livros, vídeos, documentários, exposições e inventários deixados por Sol formam hoje um importante acervo sobre a cultura cordisburguense. São registros que mantêm presentes as vozes de pessoas como Toco Pequi, Dona Lica e Brasinha, ao mesmo tempo em que valorizam talentos como Thalita Oliveira e Manoel do Norte.
Em uma homenagem publicada após sua morte, a produtora cultural Carmen Ortiz recordou a sensibilidade de Sol para ouvir e acolher os saberes das comunidades. A gestora foi definida como alguém que dominava a “arte de artear pessoas”, expressão que resume sua capacidade de reunir diferentes gerações em torno da criação cultural.
Sol Barreto também foi, durante anos, parceira do Cordis Notícias, contribuindo para a divulgação e a valorização das manifestações culturais da cidade. Sua partida causa profunda tristeza, especialmente por ter ocorrido poucos dias depois de mais uma participação ativa na Semana Rosiana.
Permanecem, porém, os projetos, os livros e as pessoas que ela ajudou a formar. Permanece o Museu do Brasinha mais fortalecido. Permanecem as histórias dos mestres transformadas em documentos. Permanecem os jovens que descobriram que também podiam escrever e publicar. E permanece a ideia que orientou sua trajetória: a de que há poesia, conhecimento e patrimônio em todos os lugares, desde que alguém esteja disposto a ouvir.
O Cordis Notícias lamenta profundamente o falecimento de Sol Barreto e manifesta solidariedade aos familiares, amigos, parceiros de trabalho e a todas as comunidades alcançadas por sua dedicação.
Velório e cremação
O velório de Sol Barreto será realizado nesta quinta-feira, 30 de julho, das 11h às 15h, no Cerimonial Santa Casa, localizado no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte.
Posteriormente, será realizada a cremação no Crematório de Minas, em Betim.

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