Uma comitiva de seis ciclistas partiu neste sábado, 16, de Cordisburgo, para percorrer mais de 1.600 quilômetros pelo sertão mineiro até Brasília (DF). A Expedição Sertão de Guimarães foi oficialmente inaugurada e, com ela, o Museu de Território inspirado na obra de João Guimarães Rosa, uma iniciativa que chega no ano em que se comemoram os 70 anos do lançamento de Grande Sertão: Veredas e do início das obras de construção da capital federal.
A expedição percorrerá 1.647 km mapeando caminhos, registrando saberes tradicionais e construindo uma infraestrutura turística digital do circuito rosiano. O projeto integra a Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso que reconhece o Caminho da Boiada como de relevante interesse cultural de Minas Gerais. Em escala internacional, busca reforçar a candidatura do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu a Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Na noite de sexta-feira, 15, o auditório do Centro de Atendimento ao Turista de Cordisburgo recebeu uma coletiva de imprensa marcada por música e literatura. A Folia de Reis Zé Tiracouro abriu os trabalhos, seguida por um trio formado pelos irmãos Raonny e Bruna e seu pai João Tiracouro, com sanfona e violão. Trechos da obra rosiana foram narrados por Juliana Barbosa, do Grupo Caminhos do Sertão, e pela jovem Ana Barbosa, do Grupo Miguilim.
Usaram a palavra o diretor André Zumzum e Marcos Buléd, da organização, o vice-prefeito Lucas Gustavo, o Secretário Municipal de Turismo e Cultura Fabiano Dias, Mariela França, do Circuito das Grutas, e Professor Hebert, coordenador do curso de turismo da UFVJM, além dos próprios expedicionários que percorrerão o sertão pelos próximos 40 dias. Objetivos, temáticas e curiosidades da travessia foram apresentados ao público e à imprensa.
Na manhã de sábado, antes da partida oficial, um passeio ciclístico de aproximadamente 22 km reuniu moradores de Cordisburgo e os expedicionários em ritmo de confraternização, do Portal Grande Sertão até a Fazenda Paulista. A cerimônia contou com músicas na viola caipira por Tim e Jhoninho, apresentação do Grupo da Melhor Idade Estrelas do Sertão, com versos inspirados em Boi Rodapião, de Guimarães Rosa, e o tradicional toque do berrante antes da partida.
Sob coordenação do museólogo André Ferreira, os seis ciclistas percorrerão o trajeto com suporte de duas caminhonetes em 40 dias de travessia. A bicicleta é a ferramenta central do projeto: permite contato direto com a paisagem rústica e acesso a locais onde automóveis não chegam, garantindo que o conhecimento produzido seja empírico e fiel à realidade do território.
O acervo deste museu não está em nenhum prédio. Ele está nas casas, cozinhas e quintais dos moradores: no ponto da massa, no manejo do carro de boi, nos saberes transmitidos pela oralidade e tratados como patrimônio vivo. Comunidades rurais, quilombolas e pequenos produtores ganham visibilidade e fomentam a economia regional com a iniciativa, cujo público-alvo inclui moradores locais, ciclistas, pesquisadores e lideranças comunitárias.
O produto final será um guia autoguiado digital, gratuito e bilíngue, com informações logísticas e culturais validadas em campo para que o território continue sendo visitado com respeito e autonomia muito além do encerramento da expedição.


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