No momento em que Cordisburgo se engalana para a celebração da "XXVIII Semana Roseana" e igualmente, quando será comemorado os 60 anos do livro Grande Sertão: Veredas, a imprensa brasileira começa a destacar os feitos do filho mais ilustre da terra.

O Portal Cordis Notícias, irá, igualmente, se associar às comemorações.

A data é de fato, um belo momento, para podermos registrar os feitos de Guimarães Rosa.

Assim, reproduziremos a excelente matéria do acadêmico e escritor, Alberto da Costa e Silva, publicada em junho de 2008, no número 33, da Revista de História da Biblioteca Nacional, página 98.

Lembranças de João Guimarães Rosa

Duas ou três vezes por semana, durante quase dois anos, eu almocei, com um grupo que tinha como centro João Guimarães Rosa, no "Bife de Zinco", como chamávamos o restaurante do Itamaraty, para contrastá-lo, bem-humoradamente, com o Bife de Ouro do Copacabana Palace.

Já me acostumara com o caderninho de notas que Rosa tirava do bolso tão logo algum de nós dizia uma palavra diferente, mencionava um tio excêntrico ou contava um fato curioso.

Apesar disso, não deixei de espantar-me quando, num cabaré de Manaus, eu o vi, de caneta na mão, desfazer, com seu jeito terno, a prudência e o recato de uma prostitutazinha recém-chegada do interior, para dela ouvir o nome verdadeiro, os anos que tinha e outros segredos e amores.

Não teria ele moldado com confidências como aquela a inesquecível Doralda (de "Dão-lalalão") e tantas outras mulheres-damas que vivem em beleza nos seus livros? Rosa só fabulava sobre o que sabia. E sabia muito: das diferentes formas dos chifres dos bois à heresia dos cátaros e à escultura de Gandara.

Não era difícil para os amigos adivinhar em que criações andava metido. Bastava pôr cuidado em suas conversas, da qual não se ausentavam as lembranças de coisas na aparência pequeninas.

Se lá estavam as migrações e os costumes dos calons, podíamos contar que em breve estaríamos lendo histórias de ciganos. Rosa não escondia o jogo.

Numa tarde de novembro de 1967, ele me chamou à sua sala, na Divisão de Fronteiras, e deu-me um lápis e um bloco de papel:

- Fique aí, sentado, quieto, e tome nota de todos os meus erros. Mas não me interrompa. Vou ler o meu discurso na Academia Brasileira de Letras e quero estar perfeito no palco, pois será a última coisa importante que farei na vida.

Duas noites depois, eu o veria de fardão, emocionado e completo, fingia que lia o discurso que sabia de cor.

Com a emoção de quem se despede, pois Rosa estava convencido de que nos dava adeus. Não escondia de ninguém a sua premonição de que faleceria logo após a posse na Academia, e por isso adiara tanto a cerimônia.

Estava certo: morreu passados três dias.

Na véspera, eu lhe havia telefonado a fim de transmitir-lhe o convite do secretário-geral do Itamaraty, Sérgio Corrêa do Lago para que dissesse algumas palavras na cerimônia de hasteamento da bandeira no dia seguinte, 19 de novembro. 

Rosa desculpou-se; estava adoentado, um pouco febril, talvez com um início de gripe.

Não havia ninguém em casa - Aracy, sua mulher, havia saído - quando se sentiu muito mal. Telefonou para sua secretária e grande amiga, Maria Augusta de Camargos Rocha, e disse-lhe que estava morrendo. Maria Augusta, angustiada, pediu-lhe repetidas vezes que desligasse, a fim de que pudesse chamar um médico. Rosa argumentou com a inutilidade do gesto e lembrou-lhe, com um humor resignado - quem me contou isto foi a própria Maria Augusta -, que ele era médico e já estava ali.

Rogou-lhe que não parasse de falar, queria morrer ouvindo a voz humana.

Por Adriano Bossi, com reprodução de matéria de Alberto da Costa e Silva - Revista de História da Biblioteca Nacional - Ano 3, nº 33, pag. 98 - junho/2008.

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