A situação de Dilma diante de um impeachment já 99% certo –  a ser concluído até o final de agosto com o país galvanizado pelas Olimpíadas –  lembra a de líderes abandonados à própria sorte diante da derrota. Certa vez, alguns anos atrás, um ministro de estado com quem conversei me disse: um programa de governo que deu muito certo sempre tem muitos pais, todo mundo quer dizer que tomou parte dele. Agora, quando dá errado, todos querem distância. Intuo que Dilma começa a entrar neste torvelinho.

Embora no seu Facebook, redes sociais e declarações públicas Dilma mantenha a aura de uma lutadora incansável até o final, e que luta contra uma brutal injustiça – um ‘golpe’, afinal – nos sinais exteriores da política percebe-se que a presidente afastada está, em realidade, isolada. Após nova derrota no Senado nesta semana, que por 59 a 21 votos a transformou em ré, Dilma está definitivamente com os dias contados.  São necessários 54 votos para afastá-la em nova votação final possivelmente no final de agosto. Os senadores pró-impeachment conseguiram, no ensaio geral desta semana, cinco a mais do que o necessário. Difícil imaginar uma reversão.

Dilma está só. Abandonada, em parte pelo próprio PT, cujas figuras públicas de relevo nos últimos dias emitiram sinais de que os ventos começam a seguir outros rumos. Fernando Haddad, o prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, flexibilizou a noção de “golpe”, dizendo que a palavra é “um pouco dura” em entrevista ao Estadão. Muito provavelmente fez disso um cálculo eleitoral, já que no eleitorado paulistano a narrativa de ‘golpe’ tem baixa adesão (no Nordeste, onde Dilma tem mais respaldo popular, é diferente, mas estes são outros quinhentos, como se diz).

Já o presidente do PT Rui Falcão deu entrevista afirmando que a ideia de convocação de plebiscito para convocar novas eleições antes de 2018 não conta com seu apoio, sendo que esta havia sido ventilada como uma das últimas cartadas de Dilma. Sem o pé do PT, a ideia de uma nova eleição antecipada  – proposição que encontra apoio na opinião pública – perde um apoio importante. 

Pode-se argumentar, com razão, que as acusações orçamentárias contra Dilma (ela não está sendo acusada por corrupção) não se sustentam como motivo para impeachment. Que o processo jurídico contra ela no Senado está permeado de hiatos: as tais pedaladas fiscais que não levam sua assinatura e os créditos suplementares que são da rotina da administração pública. Mas o que parece se impor a esta altura dos acontecimentos é que, em política, a derrota é um prato que costumeiramente se come frio. Aquele momento no qual as circunstâncias falam mais alto do que tudo. A ver como segue a novela.
Por Rogério Jordão - Yahoo 
Imagem: Exame/Abril

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